segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Uma opinião sobre a Bíblia

Bíblia: Anúncio ou história?
Joildo Cândido da Silva*
“Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho...” (Mc. 16.15)                                
As lições que aprendemos são estímulos animadores e envolventes que nos proporcionam profundas e significativas reflexões. No cuidado de uma reorientação pessoal e, por ocasião do mês em que dedicamos uma atenção especial a Bíblia, decidimos escrever esta pequena reflexão, reafirmando nosso compromisso cristão, evangelizador e missionário.
No cerne de qualquer entendimento adequado a Sagrada Escritura, está o conceito universal de que Ela é a Palavra de Deus. Esta afirmação se refere ao nosso reconhecimento de que a Igreja continua, fidedignamente, anunciando a “boa noticia”! Decerto, sabemos que o Evangelho em sua originalidade era, pois, uma boa noticia verbalmente transmitida. E, sob o ponto de vista apostólico, é o anúncio que diz respeito à pessoa de Jesus de Nazaré, constituído Senhor e Filho de Deus.
 Em razão de alguns questionamentos que há tempos tenho observado, é válido frisar alguns aspectos que, consideramos, no mínimo, importantes para a formação de uma boa consciência cristã. Não se trata de uma explanação literalmente teológica. Em síntese, o que segue, são apenas modestas premissas para algumas possíveis reflexões e estudos mais aprofundados.
Pois bem, de um ponto de vista histórico, ainda no I século, possivelmente na era apostólica ou, no tempo, imediatamente posterior aos Apóstolos, foram escritos os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. O grande mérito dos Evangelhos, é que todos eles proclamam o anúncio original de Jesus de Nazaré como o Messias, Cristo, Filho de Deus.
Entendemos que os Evangelhos, não são propriamente narrações históricas, como as podemos compreender em nosso momento. Em suma, podemos entender que Eles são a teologia da vida de Jesus de Nazaré. Segundo a conceituação prescrita no Aurélio, teologia é o “estudo das questões referentes ao conhecimento da Divindade e de suas relações com os homens.” Deste modo, podemos dizer que a base histórica da vida de Jesus de Nazaré, nos é contada de forma teológica. E, por conseguinte, é a partir dos fatos de sua vida, anunciados teologicamente, que se faz uma interpretação atualizada para nossa caminhada de fé cristã. Assim, as pessoas que ouvem, acolhem e põe em prática este anúncio, tornam-se Igreja, ou seja, tornam-se comunidades de fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e Filho de Deus.
Referindo-nos ao conteúdo pedagógico do Livro Sagrado, aprendemos que Jesus não deixou nada escrito por ele mesmo. A experiência de sua vivência fundamental foi transmitida, inicialmente, pelos Apóstolos; tornou-se o primeiro Anúncio, a Boa Notícia anterior a escrita dos Evangelhos. Portanto, os Evangelhos escritos dependem daquele Evangelho primordial, fruto direto da Pregação Apostólica. Por tudo isso, e por ter a Igreja à sucessão Apostólica, impôs-se a Ela, um discernimento, sobre quais evangelhos e escritos eram revelados e, consequentemente, eram Palavra de Deus.


* Seminarista Arquidiocesano de Uberaba, graduando em filosofia pela Faculdade Católica de Uberlândia MG. Email: joinho-cross@hotmail.com

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Meditação Sobre as Drogas!

Drogas: felicidade ou ilusão
Joildo Cândido da Silva*
Teoricamente, sabemos que as drogas são substâncias que tem efeitos estimulantes. É um mal particularmente grave que invade todas as camadas da sociedade.
Como uma velha história de pré-conceitos, a rejeição da sociedade e das instituições religiosas aos usuários, ainda é muito expressiva. O que é compreensível, tendo em vista que, as drogas levam muitos jovens, homens e mulheres a condutas de imoralidades diversas e desumanas. Sem mencionar às situações de decadências físicas e psíquicas.
 Todavia, a rejeição aos que vivem na triste realidade das drogas, por si mesma não alcança resultados positivos. Já dissera João Paulo II: “Há que reconhecer que a repressão contra os que recorrem a produtos ilícitos não basta para travar esta praga...”[1]
Ora, acredito que todos nós podemos comprovar: o fenômeno das drogas no meio dos jovens possui muitos significados. É evidente que muitos se encontram presos às correntes da dependência. Entretanto, não podemos nos esquecer que, o tempo da juventude é um momento de busca, interrogações e opções que, consequentemente, comprometem o futuro.
Não é fácil para um jovem superar as dificuldades da vida, administrar conflitos e transpor as barreiras de suas aflições. Nesse horizonte, percebemos que a opção feita pelas drogas torna-se uma via com difícil retorno, onde muitos jovens adentram na busca de uma vida ilusória, fictícia, fundamentada numa pseudo-felicidade.
Durante dois anos de minha trajetória vocacional, vivenciei uma experiência voluntária num centro de recuperação para jovens dependentes. Quando interrogávamos alguns daqueles jovens, sobre as causas, que os levaram a iniciação com as drogas, quase sempre ouvíamos a mesma resposta: “Ah! Tudo começou com a curiosidade de querer experimentar novas sensações e aventuras.” Outros: “eu queria desobedecer meus pais.” Outros, ainda: “estava com uns problemas e não conseguia nem ajuda nem solução.” 
Por vezes, também, ouvia histórias de perdas: amigos que morreram; mães que abandonaram seus filhos, familiares assassinados por motivo de vingança, privação da liberdade etc... No entanto, e na maior parte, o que mais ficou evidente é que muitos, simplesmente, se deixaram arrastar por alguém, ou por um grupo de amigos e sem nenhuma razão aparente, encontraram-se numa situação na qual não se atreveram a recusar a proposta enganadora dos fascínios desconhecidos de que já tinham ouvido falar. 
Em ambas as realidades, é perceptível que a experiência, da primeira vez, tenha trazido conseqüências de dor quase que insuportáveis e, em alguns casos irremediáveis.
Conforme João Paulo II, também afirmamos: drogar-se é sempre ilícito, porque implica a renúncia injustificada e irracional a pensar, a querer agir como pessoas livres. Quer isto dizer o que nos lembra Kant[2]: uma característica constituinte do ser humano é determinar-se exclusivamente pela razão e agir unicamente por respeito à lei da razão.


* Seminarista Arquidiocesano de Uberaba MG. Graduando em filosofia pela Faculdade Católica de Uberlândia. Email: joinho-cross@hotmail.com
[1] João Paulo II, Aos participantes do congresso internacional sobre as drogas, 532 n. 2
[2] Immanuel Kant, filosofo alemão.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Envelhecer!
Joildo Cândido da Silva.
Joildo Cândido
            Há algum tempo num dos nossos devaneios, refletindo sobre a vida, nos perguntamos o que achávamos da velhice. Ironicamente, pensamos que estivéssemos refletindo sobre a questão errada, em vista de que, os nossos “hodômetros” já passam dos 25 e, apesar de sermos considerados jovens, não costumamos gostar muito da idéia!
Naturalmente, existem realidades que ao longo de nossa caminhada existencial, não consideramos nem costumamos refletir sobre elas. Sob a influência daquele questionamento, passamos a pensar sobre a complexidade de nossa existência e, assim, paramos e chegamos à seguinte conclusão: “Involuntariamente, estamos mesmos inseridos e sujeitos a esse contexto temporal!”
 Parece-nos, que não é fácil lidar com a idéia de velhice, com a idéia de que o tempo passa para todos nós e, inesperadamente, num “futuro breve” precisaremos nos defrontar com nossas limitações físicas, em alguns casos até mental.
 Certamente, não conseguiremos expressar o que irá nos restar... Por vezes, quando visitamos alguns idosos, ouvimos de alguns, certa auditoria da vida, expressa na insatisfação e no sentimento vazio de solidão proliferado no silêncio e nas lágrimas causadas pelas relembranças dos tempos passados e pessoas amadas.
Diante desse fato, nossa fragilidade emocional, sem dúvida, é evidente. Também temos memória, nela está gravada a lembrança dos tempos de criança, dos relacionamentos com os amigos repletos de segredos que, hoje, não significam tanto para nós. Lembramos dos momentos passados, das alegrias vividas, das risadas trocadas... Dos nossos pais e pessoas que amamos...
Assim, se as palavras nos faltam, para exprimir os sentimentos e as experiências daqueles que nos precederam na velhice, estendamos nosso olhar ao mais longe possível, pois, como aprendemos com as lições da vida, não temos a oportunidade de ganhar todas às vezes, na verdade é inspiradora a idéia de que precisamos concordar em discordar. Pois, apesar de muitas vezes, não querermos aceitar a velhice, precisamos concordar que, envelhecer é uma conquista, e ela supera a alternativa da idéia de morrer jovem. A vida não está amarrada com fitas a nossa vontade, mas é um belo presente. Viva intensamente!

terça-feira, 28 de junho de 2011


Joildo Cândido
Seminarista Arquidiocesano.
 Enquanto uns matam, outros amam!
Email: joinho-cross@hotmail.com
Num mundo tão grande ao exterior, mas tão pequeno dentro de nós, sentimos os impulsos humanos se contorcerem em formas tão contrárias, que às vezes somos obrigados a nos perguntar se o ser humano que vive é  o mesmo ser humano que sente e que ama. Parece-nos um paradoxo...
 Novamente repitimos essa expressão que até  podemos reconhê-la, como um chavão em nossas reflexões. Entretanto, acreditamos que o mundo e os seres humanos são um paradoxo.
Em certa ocasião, discutíamos nas aulas de ética a possibilidade da legalização do aborto no Brasil. Ocasionalmente, os noticiários e jornais destacaram a notícia de que o Supremo Tribunal prepara-se para julgar o direto ao aborto na gravidez de fetos anencéfalos. Pois bem, como sabemos, no Brasil, o aborto é definido pelo Código Penal como crime contra a vida humana. Tendo exceções em duas únicas hipóteses: gestação proveniente de um estupro e, ou quando a gravidez implica em risco de vida para a mãe. Em ambos os casos, a polêmica sobre o aborto ainda persiste!
Ora, a gravidez Anencefálica, normalmente, não é consequência de um estupro nem pressupõe risco de vida para a mãe. Antes, a vida humana que lamentavelmente, herda essa má formação congênita, nos hemisférios cerebrais pela suposta “ausência” do encéfalo, certamente é fruto do amor e da união entre um homem e uma mulher.  Logo, fica-nos evidente que o aborto nesse caso é proibido pela lei. Além disso, um aspecto ontológico que constitui a dignidade humana é o direito a vida desde a concepção à morte natural.  Então, como podemos tentar subordinar a dignidade da vida humana aos nossos falhos e limitados julgamentos que visam à seleção qualitativa com a conseqüente eliminação dos fetos e embriões?
Acreditamos que o Amor que gera vida é algo sublime. Então, por que no Amor as coisas acontecem tão rápido? Por que as horas passam tão rápido? Mal nascemos e já é hora de partir, mal começamos a amar e já é hora de parar.
 Possivelmente, o Amor exija de nós reciprocidade, cumplicidade e uma pontinha de esperança. Isto porque é  impossível  olhar o Amor sem perceber a esperança. Só ela consegue embalar os corações e mover os sentimentos humanos.
 Então, aos amigos leitores que costumam refletir conosco, que valorizam e que defendem o direito da dignidade da vida humana e especialmente aos pais e mães de inúmeras e inocentes vidas humanas, atingidas por essa inesperada realidade: “não acreditemos que o Amor seja frustrante, é preferível sentirmos um toque do Amor por mais breve que seja, que a dor da ausência desse Amor. Pois, enquanto uns “matam”, infringindo a plenitude do Amor, outros Amam e se Amam.”   



[1] Joildo Cândido da Silva, seminarista arquidiocesano de Uberaba.

quarta-feira, 1 de junho de 2011




A união homoafetiva.
Joildo Cândido da Silva[1]

Joildo Cândido

Passadas as turbulentas e conflitantes informações, relacionadas ao reconhecimento jurídico da união estável entre as pessoas do mesmo sexo, decidimos escrever este pequeno ensaio acerca dessa realidade que consideramos no mínimo bastante complexa.  Não é nosso propósito apresentar aspectos doutrinais nem fundamentalistas que, em alguns casos, geram preconceitos e embaçam as verdadeiras questões a serem refletidas.
Todos podem constatar que as discussões sobre o reconhecimento civil da união homoafetiva implica em muitos equívocos. Algumas Instituições Religiosas defendem uma reflexão fundamentada em valores de princípios ontológicos, éticos e morais, por outro lado, alguns legisladores e juristas, consideram a união legítima e, portanto, precisa ser protegida pelo Poder Judiciário e reconhecida por toda a sociedade. Assim, vivemos um grande dilema relacionado ao significativo aspecto conceitual da instituição familiar tradicional, visto que, no momento presente, se inaugura a possibilidade da construção de uma “família” por pessoas do mesmo sexo.
 Em ambos os casos, quem procurar entender saberá que, não podemos deixar de reconhecer a contribuição que nos proporciona a família tradicional. De fato, os princípios e os valores morais, herdados da instituição familiar e, instituídos ao longo dos tempos, como o compromisso, o amor, o respeito, a fidelidade, harmonizam-se entre si e possibilitam ao individuo uma formação sólida e eficazmente viável para sua conduta humana na sociedade.  Todavia, muitos entendem que a ordem dos valores morais, representa no cotidiano, uma imposição de um universo religioso que precisa ser desfeito. Entretanto, quando nos distanciamos e rejeitamos os princípios e valores essenciais para promoção da dignidade do homem, acabamos desmantelando a idéia de sociedade humana. Logo, as características fundamentais que se integram a sociedade por meio dos ensinamentos familiares, passam a ser vistos como sentimentos dos fracos e valores ultrapassados...
Particularmente, somos a favor da liberdade humana. Absolutamente favoráveis a felicidade plenificante do homem, e por isso, acreditamos numa consciência moral que não anula o compromisso, o respeito e a comunhão entre os seres humanos. Ademais, na condição humana está prescrito o direito natural que rege o matrimônio e a instituição familiar, fato, que o “direito positivo” (ou seria “opinativo”?) de alguns juristas brasileiros deveriam levar em consideração.
Por fim, a definição do que é uma família, no que tange nosso humilde ponto de vista, não pode limitar-se unicamente as leis civis. Estabelecer uma norma constitucional, equiparadas a institucionalização da família tradicional é a tentativa de relativizar e despersonalizar fundamentos essenciais da vida do homem.


[1] Joildo Cândido da Silva, seminarista Arquidiocesano de Uberaba MG.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Violência por ação ou omissão!
Joildo Cândido da Silva[1]
Há poucos dias, juntamente com um grupo de alguns amigos e colegas da faculdade, estávamos reunidos num simpósio internacional sobre violência e a metafísica contemporânea. Qual não foi novamente nossa surpresa diante dos noticiários de quinta-feira 07 de abril, que nos deixaram perplexos, perante as noticias do massacre violento numa escola municipal do estado do Rio de Janeiro.
Acredito que não há uma pessoa no Brasil, que não se tenha solidarizado com o assassinato das doze crianças vítimas da fúria insensata de um jovem de apenas 23 anos. A tragédia que ceifou as vidas das crianças inocentes, sem dúvida, perpetuará na memória de muitos que assistiram e, acompanharam pelos meios de comunicação, mais um lamentável episódio da vida real.  Obviamente, não há explicações convincentes que se possa aceitar, nem consolo para os pais e familiares, que sofreram e sofrem a dor da perda e da lacuna, a partir de então, existentes em suas vidas.
Questões colocadas sobre a violência estão na memória de todos nós, não faz muito tempo que também testemunhamos assassinatos de crianças: João Helio, vítima de um assalto em fevereiro de 2007,  foi arrastado, preso  ao cinto de segurança pelo lado de fora do carro, na tentativa de fuga  dos assaltantes; o caso da menina Isabela Nardone, brutalmente jogada do sexto andar do edifício London, em março de 2008; do menino João Roberto de apenas três anos, morto quando o carro onde ele se encontrava, foi alvejado com dezessete tiros em julho de 2008.
Podemos constatar que a violência, cada vez mais, persiste em nossos dias. A falta da observância dos valores morais, de princípios ontológicos e éticos na humanidade, contribui para que a sociedade vivencie, unicamente, uma proposta fragilizada, pois, não são levados em consideração na formação humana e pessoal do homem, aspectos significativos que orientem a sua vida. Nossa humanidade está, cada vez mais, envenenada pelas ações violentas e desmedidas, de uma sociedade despersonalizada e desprovida da observância de valores.
Segundo o dicionário de filosofia, entendemos que a “humanidade é aquilo em virtude do que o homem é homem; e em homem é homem não porque tem os princípios individuais, mas porque tem os princípios essenciais da espécie”[2] Deste modo nos perguntamos: O que fazer para que a humanidade torne-se cada vez mais humana? Penso simplesmente ser necessário que a sociedade volte a ser pacífica, o que se conseguirá com uma formação humana, intimamente ligada, aos princípios fundamentais de valores ontológicos como o respeito à dignidade da vida humana, o Amor, justiça, compaixão. Portanto, desejo que não sejamos aquilo que nos lembra um ditado romano, “Homo homini lúpus”[3]  - o Homem é lobo para outro homem.






[1] Joildo Cândido da Silva, seminarista arquidiocesano de Uberaba MG, graduando do curso de filosofia pela Faculdade Católica de Uberlândia MG.
[2] ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p.518. Cf. conceito de Humanidade.

[3] Dom Benedito Ulhôa Vieira. Citado em um de seus artigos publicado pelo Site da Arquidiocese de Uberaba MG.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O silêncio de Deus.
Joildo Cândido da Silva[1]
Recentemente ficamos impressionados com as informações da catástrofe, causada pelo terremoto e tsunami que atingiu e devastou a região leste e nordeste do Japão. Alguém, com certa ironia, me perguntou: “Deus, existe mesmo? O Criador do mundo está castigando sua criação? Onde está Deus? Porque Ele permite que aconteça tanto mal e sofrimento? Que realidade triste!” Pensei: “o problema está armado...” “Agora, Seminarista, te vira para explicar”. E esta é a razão de ser desde limitado escrito acerca de algumas dessas questões.  
            Não são poucas às vezes que este simples seminarista, estudante de filosofia que escreve estas linhas, tenta refutar sua impotência diante de realidades que nos causam tanto espanto. Há ocasião em que percebo, em meus escritos e reflexões, fundamentados nos ensinamentos da Igreja, de que Deus jamais quer a morte de quem quer que seja. Pelo contrário, a vontade de Deus, é sempre de vida para vida plenificante do ser – humano dentro da natureza e do universo, apesar dos pesares!
Pois bem, quando nos defrontamos com o silêncio de Deus diante das tragédias intituladas naturais pela qual somos atingidos em maior ou menor grau e, que lamentavelmente, ceifa inúmeras vidas humanas e quando esse silêncio ainda continua instigar e levantar questionamentos acerca de Sua existência me volto para Jesus crucificado, pois Nele, contemplo o próprio Deus crucificado e silencioso, que no calvário não falou. Na zombaria expressa pelos soldados romanos, que duvidavam da Sua Filiação Divina, não desceu da cruz! E quando ratificada a sua condenação, esvaziou-se de sua divindade acolhendo sobre si a nossa humanidade, onde permaneceu obediente até a morte e morte de cruz.
No ocorrido trágico dos últimos dias no leste e nordeste do Japão, que se assemelha ao tsunami ocorrido em dezembro de 2004 e, ao inesperado e devastador terremoto do Haiti em janeiro de 2010, além das inúmeras enchentes, deslizamentos de terras na região serrana do Rio de Janeiro, que ocasionaram o sofrimento, o desabrigo e mortes de pessoas inocentes; somos tentados a querer tornar Deus o responsável por tais realidades. Outros ainda com um discurso fundamentalista relacionam os sofrimentos humanos, provenientes das catástrofes, a concepção de punição para expiação dos pecados da humanidade. De fato, e por um principio cultural e religioso, Deus-Pai, é o Criador do mundo! A própria narração Bíblica no livro do Gênesis, atesta essa afirmação.[2] Assim, e não apenas por isso, acredito que Deus criou todo o planeta terra e o criou como um todo: a natureza, os oceanos, a biodiversidade etc... Porém, não podemos nos esquecer que toda a criação está sujeita as leis naturais de sua própria existência, nas quais nós seres humanos podemos interferir. Portanto, é justo que atribuamos a Deus a responsabilidade das tragédias naturais, visto que Ele é o Criador? Na minha simples reflexão, penso que não seja racional nem correto. Explico-me brevemente: Como os noticiários bem esclareceram, o terremoto é de ordem natural do planeta e, o tsunami ocorreu por conseqüência da magnitude do terremoto; além disso, e não atribuindo aos lamentáveis fatos ocorridos, podemos constatar que o mundo está sendo contaminado, desde os oceanos, com lixo radioativo, dentre outros lixos, até as regiões superiores do planeta, com cerca de 45 mil toneladas de dejetos espaciais orbitando sobre a terra, sem deixar de mencionar a  destruição da camada do ozônio protetor. A vida natural está sendo dizimada! E nós homo sapiens, com ela. Responsável? Todos! Sendo assim, eu não poderia jamais responsabilizar o Deus Criador, pois, Ele não tem qualquer vontade de castigo, punição e morte para sua criação. Estes aspectos, que a Deus atribuímos, assemelham-se muito mais as nossas características humanas!
Certamente, ainda podemos pensar que Deus, mesmo não sendo o responsável, ainda permite que o mal aconteça. Diante disso, lembro-me das muitas horas de debates nas aulas de filosofia, em que discutimos sobre o dualismo entre o bem e o mal. Suponhamos um hipotético e um filosófico Deus que ficaria num incômodo silêncio diante do que aconteceu. Nós nos perguntaríamos: “porque Deus fica calado diante de tudo isso? Olhando sobre este aspecto, descubro uma ambigüidade exprimindo a questão que poderia ser colocada assim: se Deus é Deus, porque existe o mal? A ambigüidade desse deus dos filósofos se arrasta desde toda filosofia antiga, passando por santo Agostinho até os dias atuais: “O mal, é a ausência do bem.”[3]  “O mal como fruto do livre arbítrio.”[4]  “A existência do mal é a prova de que Deus não existe.”[5] São explicações filosóficas razoáveis mas não resolve o problema da aporia[6] existente. Todavia, penso que a filosofia tem sua própria área teórica de reflexão, mas, no que tange meu humilde ponto de vista, ela nunca dará uma resposta suficientemente convencível sobre a existência de Deus. Pois, se diante da realidade dos fatos naturais, procuramos um “Deus culpado”, estamos muito aquém de dizer algo que faça sentido.
 Tenhamos, então, por princípio algo simples, comum e aceitável em nosso momento atual: “não há liberdade sem responsabilidade.” Então, quando penso na existência do mal e ele implica na relação homem e natureza, é possível que Deus permita  que o mal aconteça, isto, por conseqüência, daquilo que Ele já nos permitiu por primeiro na história da criação: o livre arbítrio.
Concluindo nossa reflexão, acredito que no silêncio de Deus na cruz de Jesus Cristo, é que Deus falou mais alto. De maneira que, me referindo à situação das catástrofes naturais, é o silêncio de Deus, presente nos milhares de seres humanos que sofreram e sofrem as conseqüências de dor, perdas e mortes, que ecoa o grito de Deus até agora, clamando pela compaixão humana. Espero que possamos ouvir o silêncio de Deus, e nos sintamos co-responsáveis pela relação entre o homem e a natureza, para que, assim, se estabeleça uma nova perspectiva de uma vivência num mundo melhor a ser conquistado.


[1][1] Joildo Cândido da Silva, é seminarista da Arquidiocese de Uberaba MG, e estudante do curso de Filosofia da Faculdade Católica de Uberlândia MG.
[2] “No princípio Deus criou o céu e a terra...” Cf. Bíblia Sagrada, Livro do Gênesis, 1, 1... Paulus 2002,  SP
[3] MORESCHINI, Claudio.História da Filosofia Patrística. Tradução de Orlando Soares Moreira.SP: Loyola, 2008.
[4] Em A Cidade de Deus Agostinho pergunta: “Peccatum, unde uenis?” (“Pecado, de onde vens?” – Mal, liberdade e futuro no De Civitate Dei, de Agostinho).
[5] FAURE, Sebastião. Provas da inexistência de Deus. Editora Germinal, RJ. 1959.
[6] Aporia: Impasse do pensamento. Reconhecimento por parte de todos os interlocutores da impossibilidade da conclusão de um debate. Dicionário de Filosofia.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Estou Pensando em Deus!



Joildo Cândido
  Estou pensando em Deus!
Joildo Cândido da Silva[1]
Freqüentemente, diante das Igrejas, passam pessoas que habitualmente fazem o sinal da cruz. Às vezes, alguns rostos cansados e abatidos da labuta diária demonstram muita dignidade, respeito e amor, ao Deus que acreditam ali morar. De fato, as Igrejas são consideradas lugares sagrados, intituladas “casa de Deus”. Erramos quando, dizemos que esse fato é simplesmente cultural e, para alguns, característica de personalidades interioranas de homens e mulheres que  desenvolveram  devoções populares e práticas religiosas. Independentemente, da nossa maneira de ser, de viver e crer, penso que a “casa de Deus”, é um lugar de acolhida,  reúne pessoas que almejam a felicidade, sonham com  a justiça e  buscam experenciar uma vida fraterna. Acontece que na vida, nem sempre encontramos Deus nas Igrejas. Existem realidades incoerentes que contradizem nossa capacidade de sermos solidários, autoritarismos imperialistas, neo-liberalismos que relativizam valores morais e desenvolvem um egoísmo indiscriminadamente... Reconhecemos, sem dúvida, as conseqüências e profundidades desses fatos.  Assim,  alguns já não se sentem estimulados, não há motivação,  sentem-se  desesperançados, o distanciamento, a descrença são conseqüências absolutamente certas. Diante disso, observo penalizado o sofrimento e o esforço daqueles que ainda crêem na existência desse Deus que  habita as Igrejas. Parece-me uma complexidade de expressões factuais positivas e negativas relacionadas à existência de Deus.
 Quando criança no interior do nordeste, ouvia nas madrugadas o despertar para as caminhadas penitencias animadas, ao som de uma velha canção do padre Zezinho SJ, “Estou pensando em Deus, estou pensando no amor...”  Assim, atrevo-me a escrever essa pequena reflexão, pensando na crença e na existência de Deus. Não é meu propósito pensar em Deus como um erudito ou um intelectualista. Para isso, encontramos respeitados livros como: “Existe Deus?”, onde o autor, Hans Kung, elenca aspectos significativos e históricos  sobre Deus. Não, almejo apenas propor um pensamento sobre o Deus do dia-a-dia, que apresenta-se na simplicidade da própria vida.
Há algum tempo, uma reportagem publicada no Jornal, Folha de São Paulo, chamou minha atenção.  O titulo da matéria: “Deus é desnecessário para explicar a criação, diz Hawking.” Certamente, a teoria do físico Britânico é admirável e fundamenta-se em aspectos fascinantes, que as ciências empíricas, especificamente a física moderna, apresentam para explicar a origem do universo. Por outro lado, não consegui enxergar um ateísmo que justificasse o espanto causador de  tantas discussões.Talvez, por ter gravado na minha memória de criança interiorana, aspectos de fé num Deus, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, tenha compreendido, apenas, com a leitura da reportagem, acima mencionada,  que em momento algum, o respeitado físico, tenha negado a existência de Deus, porém, ele questiona a sua iniciativa na obra da criação: “O Big Bang não teria uma causa, seria uma geração espontânea e não seria necessário invocar Deus pra acender o pavio e por o universo em movimento.”[2]  Assim, podemos valer-nos da unívoca filosofia aristotélica e tomista : “Nenhum ser pode agir antes de existir[3]”, ou ainda, mencionar Agostinho: “Nada há no homem e no mundo superior a mente, mas, a mente intui verdades imutáveis e absolutas, que são superiores a ela, portanto, existe a verdade imutável, absoluta e transcendente que é Deus.”[4]  Diante disso, é válido salientar que até  os primeiros filósofos gregos, buscavam um princípio (arché) físico para explicar o cosmo. Entretanto, como mencionamos, anteriormente,  não aprofundaremos nossa reflexão em questões filosóficas e metafísicas. Isto ficará para outra ocasião.
E, por conseguinte, eu continuo pensando em Deus. Ora, como não pensar em Deus, se os noticiários anunciam com freqüência guerras em nome de um deus? Como não pensar se vivemos numa sociedade que estabelece para si o dinheiro como o bem supremo (deus)? Como não pensar se vemos constantemente profissionais do legislativo, executivo, judiciário discutirem leis que possam decidir se algumas vidas humanas têm o direito de nascer ou não?...  Impossível deixar de  pensar em Deus, quando as próprias religiões se dividem e travam, entre si, batalhas de verdades doutrinais e fundamentalistas.
Também sou incapaz de acreditar no deus que muitos anunciam e, defendem em suas doutrinas um imediatismo quase divinizado que se expande e explora a boa vontade e a fé do povo, com um “pseudo-evangelho” que visa, unicamente, o lucro e o crescimento da sua igreja particular. Não há como não pensar em Deus, quando as instituições educacionais de fundações religiosas dedicam-se apenas, a educação de alunos provenientes das famílias de classe média e rejeitam os pobres por não terem condições financeiras para pagar seus estudos.
 Para ser sincero, assim, também penso que seria um ateu!
Sem duvida, eu seria um agnóstico ou um ateu convicto, se tivesse que professar minha fé, num deus que é só uma idéia de minha mente. Confessaria, do mesmo modo, meu ateísmo, se tivesse que pensar num deus autoritário, coronelista, egoísta, opressor que deseja tornar as pessoas submissas aos seus próprios interesses. Confesso ainda meu ateísmo, quando ando pelas ruas a pés, e quase sou atropelado. Ou ainda quando ando de carro, e vejo a incoerência dos que pregam em seus veículos, em suas casas, comércios, out dors: “Jesus é o senhor”... “A serviço do rei Jesus”... “Só Deus Salva”... “Deus é fiel!”... Assim, compreendo que essa ostentação não corresponde a minha fé. Por isso, prefiro continuar ser aquela criança interiorana que cresceu e soube adaptar-se ao momento presente, mas não rejeitou sua fé no Deus que mora nas Igrejas e que não faz acepção de pessoas. Certamente continuarei pensando em Deus, cada dia de minha vida, descobrindo e encontrando-o na simplicidade da vida de tanta gente que  simbolicamente, com o sinal da cruz, torna recíproco seu amor e respeito a esse Deus.



[1] Joildo Cândido da Silva, é Seminarista da Arquidiocese de Uberaba-MG, e aluno do curso de Filosofia da Faculdade Católica de Uberlândia-MG.
[2] Folha de São Paulo, 02 de setembro de 2010.
[3] AQUINO, Tomas. O Ente e a Essência, Carlos Artur do Nascimento (trad.), Petrópolis: vozes, 1995.
[4] Santo Agustinho, in Os pensadores, vol. VI, abril, SP.  1973