Artigos Dom Aloísio Roque Opperman

 EXISTE PODER SOBERANO?
O grande S. Tomás de Aquino, na sua monumental obra “Suma Teológica”, ensina que a criatura humana, dotada de razão, está submetida à Divina Providência. Por isso o decálogo do Criador é intocável, por estar vinculado à lei natural.  Nenhum poder humano pode estabelecer leis que entrem em choque com essa lei originária, como por exemplo, permitir apoderar-se de propriedade alheia legítima, autorizar o homicídio, aprovar a infidelidade conjugal.
Há leis morais que não dependem do nosso querer. São tão sábias que se tornam imperativo categórico, emparelhando com as leis da física. “ A lei do Senhor é perfeita”  (Sl  19, 7). Se alguém acha que o poder público está acima do direito natural, está lhe conferindo uma autoridade soberana. Nem o poder judiciário está acima da ordem natural. Só Deus é soberano. “Nem o príncipe, nem o imperador são realmente soberanos” (Maritain). Nem tão pouco é soberana a vontade do povo, quando quer seguir  caprichos. A  lei injusta, ou contrária à reta ordem, mesmo que exprima a vontade da maioria, não  tem valor de lei. Assim se evitam os males à comunidade.
A Igreja está  relacionada com a sociedade. O filósofo agnóstico Habermas advertiu o mundo, diante do cardeal Ratzinger, que todos deveriam ouvir mais a Igreja,  porque ela é movida por reta intenção, e tem experiência em assuntos humanos. A atual secularização da sociedade leva a catástrofes. Sabemos que o ser humano tem inteligência ordenadora, para tornar o convívio humano voltado para o bem comum. Por isso os legisladores podem produzir leis para um melhor convívio.
Mas falece-lhes autoridade para minar a família tradicional, concedendo privilégios descabidos a outros grupos. Os legisladores não tem o poder de “criar”.  Não tem o poder de classificar o cachorro e o gato como se fossem da mesma espécie. “E Deus viu que tudo o que fizera era muito bom”  (Gn 1, 31). Não queiramos fazer coro com a ONU, nem com certos juízes desorientados, quando procuram relativizar a união conjugal entre um homem e uma mulher. Os legisladores tem poder subsidiário, diante das leis  eternas. Estas, sim, são soberanas, porque vem do Criador.  Dom
Aloísio Roque Oppermann scj  -  Arcebispo de Uberaba, MG     .


________________________________________________________________________________

EM DEFESA DO BOM PASTOR

Em certa ocasião, um grupo de políticos católicos, na esteira da ideologia de seu partido, me pediu que,  na Igreja,  parássemos de falar em “pastor”, “rebanho”, “ovelhas”, pois isso se tinha tornado uma conversa desagradável aos ouvidos modernos. Levando em consideração o singular  pedido, fiquei analisando por que tal idéia estava despertando neles tanta resistência. Cheguei à conclusão de que se trata de um enorme equívoco. 
As palavras generosas,  brotadas dos lábios de Jesus, foram abordadas em outra chave de leitura, e não no seu sentido original, altamente simpáticas. “Eu sou o bom Pastor e conheço as minhas ovelhas” (Jo 10,11). Qual é o falso pressuposto dessa linda figura do Pastor? Veja a minha leitura.
Está suposto – sempre na idéia deles - que essa parábola transmite  a idéia de que o povo ficaria reduzido à condição infantil; que esta imagem traria contexto da roça, e nós somos do meio urbano; que a obediência despersonaliza e  mata a iniciativa; que o rebanho é levado para um destino bucólico de paz, de estagnação, e não de moderna luta; que essa imagem levaria a não ter iniciativa; ela  realçaria demais a dependência do chefe e a identificação com ele; traria uma fatal dependência do grupo, totalmente sem fantasia e sem vontade própria. Mas ao contrário, acho essa figura muito linda e respeitável.
Quem procurar entender bem, saberá que a idéia se desenvolve num ambiente sumamente positivo.  Jesus mostrou que a obediência não despersonaliza, mas faz crescer, como Ele fez diante do Pai. “Embora sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente” (Hb 5, 8). A parábola ensina que as ovelhas seguem o Bom Pastor. Portanto são livres, e não tangidas contra a vontade. A ovelha é um animal frágil, fácil presa de lobos. O ser humano precisa da proteção de alguém mais forte, que o liberte das garras dos malvados. Jesus é o protótipo da ternura, e tem relações sumamente amistosas para com seus seguidores, e não de domínio. 
Por conseguinte, por nada deste mundo vamos deixar de lado essa linda idéia do Pastor, porque ela tem raízes no Primeiro Testamento (veja o Sl 22), e sobretudo no Novo. Prefiro a Bíblia a qualquer eventual cartilha de grupos particulares. Diante  da alergia de alguns poucos, vamos abandonar a praxe de 20 séculos de arte, de músicas, pinturas e de rica teologia?
Dom Aloísio Roque Oppermann scj  - Arcebispo de Uberaba, MG
Endereço eletrônico: domroqueopp@terra.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

_________________________________________________________________________


NUNCA É DEMAIS LEMBRAR

Somos seres irrequietos, com uma curiosidade insaciável. Isso nos permite encontrar respostas para os mistérios do universo. Somos sem descanso nos nossos porquês. Até os meninos querem abrir os brinquedos, para  saber como funcionam. (E nós achamos que eles estão estragando os presentes...). Mas a pergunta suprema  é de cunho metafísico: qual o sentido da vida?  O cristão se pergunta:  de que meios posso me valer para crescer na fé? Como posso ter respostas para os anseios da alma?  O que pode alimentar a minha espiritualidade? 
Mesmo com caridosas advertências dos Bispos, muitos fiéis se aproximam de águas contaminadas pelas fantasias humanas, ou de alimentos que não contém nenhuma substância para nos fortalecer. Refiro-me ao duvidoso apelo às visões e manifestações particulares. “Dei  leite a vocês, não alimento sólido”         (1 Cor 3,2). Se numa região existem 1.000 aparições, seguramente 999 são falsas, provenientes de pessoas ingênuas, visionárias, ou até de má fé. Mas então, o que realmente pode nos ajudar à abertura  para uma fé robusta?
Os recursos que a bondade divina nos apresenta são infindáveis. Começo pela Eucaristia, verdadeiro “pão do céu”, seja para adultos e até para crianças. Esse é o maná que nos sacia. Fortalece a fé e a  caridade. Põe-nos em contacto com Aquele que pode encher nossa vida de esperança.
Outra ajuda estupenda é  a vida em comunidade. Esta nos mostra que a “ovelha que anda sozinha, será pega pelo lobo”.  Jesus, desde o começo de sua vida pública, juntou a seu redor uma pequena comunidade, à qual transmitia seus ensinamentos e sua graça salvadora. Hoje ainda é assim. Junto com os demais irmãos de caminhada superamos grandes dificuldades. Não esqueçamos a Sagrada Escritura, fonte perene de transmissão das bondades divinas. Ela é a alma da Teologia.
Mas especialmente ela nos faz entrar em contacto com a pessoa divina. O Espírito nos ilumina para superarmos os entraves da nossa missão. Sem excluir muitos outros modos de nos fortalecermos no bem, falemos ainda da prática da caridade. Ajudar aos outros não faz só um enorme bem ao semelhante, mas dá um retorno benfazejo ao próprio praticante. Enfim,  vamos nos ocupar com revelações particulares somente se sobrar muito tempo. Nós vivemos, preferencialmente. desses 4 grandes dons.
__________________________________________________________________________
 COMO DEUS É AUDACIOSO!

Pensando nessa frágil criatura, que é o ser humano, admiro como o Criador entregou ao seu alvitre tantas grandiosidades, saídas de suas mãos. “Tu o fizeste pouco menor do que um deus” (Sl 8,6). É realmente espantoso que o Onipotente  tenha  confiado ao ser inteligente, a capacidade de escolha. É a vontade livre, ou como dizem os filósofos, o livre arbítrio. Essa poderia se tornar a maior “roubada”,  no linguajar dos jovens. Sendo livre, o homem tem a capacidade de fazer tudo errado. Mas também pode fazer certo. 
E não é diferente o alto risco a que o Ser por excelência quis correr, ao entregar aos cuidados do homem a guarda deste nosso fantástico planeta terra. “Enchei e dominai a terra” disse o generoso Senhor, aos nossos primeiros pais (Gen 1, 28). Que perigo! O risco é que o “homo sapiens” pode deitar tudo a perder, por causa de seus ímpetos de ganância. Mas pela sua autoconsciência, o ser que é o topo da criação, pode corrigir seus próprios erros. O que parece levar ao caos total, pode ter uma virada espetacular. É o que esperamos que aconteça com a vida neste nosso “planeta água”.
Igualmente espetacular é a confiança que Deus deposita nos escolhidos por seu Filho, para interpretar as Sagradas Escrituras. A Bíblia, caso não se faça uma adequada exegese, pode se tornar uma mensagem sem mordência. Aí entram os biblistas, os doutores dos santos escritos, e  pessoas santas que os vivenciam. Podem acertar, para ajudar o povo. Mas também podem introduzir sua própria ideologia e desencaminhar o povo fiel. Ainda bem que deixou, como último baluarte, os préstimos da Santa Igreja.  
Em todas as circunstâncias, Deus arrisca. Mas o que eu acho o cume da bondade divina, é ver o Cristo entregar seus tesouros aos cuidados dos seus sacerdotes, com a incumbência  de reger o povo eleito, e lhe distribuir os seus tesouros. Os sacerdotes podem ser pessoas firmes na fé, circunspectos e sábios. Mas podem também ser pessoas sem muito carisma, e sem grande amor no coração. Assim mesmo, o grande “Pastor e Bispo de nossas almas” (1 Pd 2, 25) entrega tudo nas mãos dos seus Sacerdotes, para que distribuam aos sedentos a “água da vida” (Apoc 21, 6). Peçamos ao Senhor que sempre tenhamos Padres dignos e santos.
Dom Aloísio Roque Oppermann scj  -  Arcebispo de Uberaba, MG
________________________________________________________________________________
NOSSO INCRÍVEL PLANETA
A terra, dentro do contexto dos astros, possui dimensões muito modestas. Até pobres.  Não passa de um grão de areia diante do tamanho ciclópico de algumas estrelas, ou, pior ainda, diante do tamanho das galáxias. Mas como a história do big bang nos leva a concluir, todo o universo  é  antrópico.  Isso é, desde o primeiro bilionésimo de segundo as coisas foram se direcionando, para que como término da obra da criação aparecesse o ser humano, o topo da criação visível. 
Para que a vida, em sua constituição mais complexa, pudesse aparecer, fez-se necessário um hábitat, uma casa, onde toda a vida vegetal e animal pudesse se estabelecer. Eu não vou agradecer à terra, nem ao big bang, nem à natureza, os imensos privilégios com que fomos distinguidos. Essa abundância de seres e de vida foi planejada pelo Pai Criador, que quis isso tudo, dizendo  sua Palavra. “No princípio criou Deus o céu e a terra”  (Gen 1,1). A esse Deus eu agradeço, extasiado por sua sabedoria e poder. (E por seu amor por nós).
Se a terra, olhando seu tamanho relativo, é quase insignificante,  suas características, favoráveis à vida  são estupendas e até únicas. Nosso planeta tem água líquida, base para toda a condução da atividade vital. Tem atmosfera, com gases suficientes para  purificar os processos vitais. Tem camada de ozônio, para proteger contra as irradiações devastadoras vindas de outros astros. Possui rotação constante sobre um eixo, que facilita a exposição alternada ao sol, evitando  o frio absoluto ou o calor excessivo.
Tem uma distância ideal do sol para manter uma temperatura necessária para a vida. Paremos por aqui. Os outros planetas todos, ou são uma fornalha de calor, ou uma geladeira total. Não tem atmosfera, não tem defesa contra os raios perniciosos; são secos, sem água líquida; giram à deriva, ou nem giram nunca; a gravidade é exagerada, ou é tão fraca que tudo se perde pelo espaço...Não existe planeta gêmeo da terra.
Então vamos cuidar melhor disso que recebemos como dádiva das mãos divinas. “Encham e submetam a terra”  (Gen 1, 28). Isso de submeter a terra        (e todo o universo)  deve ser entendido no sentido de cuidar. Pode haver o uso de tudo, mas um uso sustentável, como em boa hora lembra a Campanha da Fraternidade deste ano de 2011.

Dom Aloísio Roque Oppermann scj  -  Arcebispo de Uberaba, MG
Endereço eletrônico: domroqueopp@terra.com.br
__________________________________________________________________________________
O PECADO NOS PREJUDICA?
Com o nobre intuito de nos libertar dos complexos de culpa, das fixações mórbidas, e das doentias tendências para escrúpulos intermináveis,  a humanidade joga duro contra a existência do pecado.  O espírito de permissividade exige liberação de todos os tabus. Não há mais limites para  as mentes livres. Praticar atos ilícitos seria uma busca de saúde mental. Garantiria uma consciência leve. Seria a libertação das inibições destruidoras. O que nos liberta, no entanto,  é a verdade e não a enganação. “A verdade vos libertará”  (Jo 8, 32) já avisava Jesus. Uma personalidade madura sabe distinguir entre um desarranjo psicológico, e uma culpa verdadeira, que devemos reconhecer.


O pecado é um mal, que nos fere no nosso “eu”. O Criador generoso, conhecendo a nossa constituição, para evitar o caminho dos desvios, já nos deu as instruções sobre o que devemos fazer positivamente, e o que devemos evitar. Se praticarmos o mal a nossa alma fica ferida. No “self” se aninha o descontentamento. Não podemos ficar em paz porque  fizemos o mal ao nosso semelhante; ofendemos  o amor paterno de Deus; e cedemos às más tendências do egoísmo. Com isso nos afastamos  dos irmãos. Você quer conhecer uma personalidade mais sadia do que São Paulo? E ele dizia com convicção: “Jesus Cristo veio  para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro”  (1Tim 1, 15).
Existe remissão do pecado? A minha consciência pode ser purificada dessa potência maléfica? A primeira condição é reconhecer o erro. “Tende pena de mim que sou pecador”  (Lc 18, 13) dizia o publicano. E junto com isso, devemos avivar a fé na pessoa de Cristo, que é o grande libertador. Assim começamos a arrebentar a rede de permissivismo que perpassa o mundo de hoje. Quem quer se livrar do peso inútil do mal, particularmente quando se trata de faltas menores, deve fazer obras de caridade em favor do próximo, ler com fé a Sagrada Escritura, amar a Deus especialmente na oração, participar de celebrações litúrgicas. Isso nos purifica e centra a alma. Mas sobretudo devemos nos aproximar do sacramento da penitência, sacramento concedido por Jesus, que tem o poder de perdoar qualquer pecado. Não seria uma ótima tarefa para a quaresma que se inicia?      
Dom Aloísio Roque Oppermann scj  -  Arcebispo de Uberaba, MG
Endereço eletrônico:
domroqueopp@terra.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.