Joildo Cândido da Silva[1]
Recentemente ficamos impressionados com as informações da catástrofe, causada pelo terremoto e tsunami que atingiu e devastou a região leste e nordeste do Japão. Alguém, com certa ironia, me perguntou: “Deus, existe mesmo? O Criador do mundo está castigando sua criação? Onde está Deus? Porque Ele permite que aconteça tanto mal e sofrimento? Que realidade triste!” Pensei: “o problema está armado...” “Agora, Seminarista, te vira para explicar”. E esta é a razão de ser desde limitado escrito acerca de algumas dessas questões.
Não são poucas às vezes que este simples seminarista, estudante de filosofia que escreve estas linhas, tenta refutar sua impotência diante de realidades que nos causam tanto espanto. Há ocasião em que percebo, em meus escritos e reflexões, fundamentados nos ensinamentos da Igreja, de que Deus jamais quer a morte de quem quer que seja. Pelo contrário, a vontade de Deus, é sempre de vida para vida plenificante do ser – humano dentro da natureza e do universo, apesar dos pesares!
Pois bem, quando nos defrontamos com o silêncio de Deus diante das tragédias intituladas naturais pela qual somos atingidos em maior ou menor grau e, que lamentavelmente, ceifa inúmeras vidas humanas e quando esse silêncio ainda continua instigar e levantar questionamentos acerca de Sua existência me volto para Jesus crucificado, pois Nele, contemplo o próprio Deus crucificado e silencioso, que no calvário não falou. Na zombaria expressa pelos soldados romanos, que duvidavam da Sua Filiação Divina, não desceu da cruz! E quando ratificada a sua condenação, esvaziou-se de sua divindade acolhendo sobre si a nossa humanidade, onde permaneceu obediente até a morte e morte de cruz.
No ocorrido trágico dos últimos dias no leste e nordeste do Japão, que se assemelha ao tsunami ocorrido em dezembro de 2004 e, ao inesperado e devastador terremoto do Haiti em janeiro de 2010, além das inúmeras enchentes, deslizamentos de terras na região serrana do Rio de Janeiro, que ocasionaram o sofrimento, o desabrigo e mortes de pessoas inocentes; somos tentados a querer tornar Deus o responsável por tais realidades. Outros ainda com um discurso fundamentalista relacionam os sofrimentos humanos, provenientes das catástrofes, a concepção de punição para expiação dos pecados da humanidade. De fato, e por um principio cultural e religioso, Deus-Pai, é o Criador do mundo! A própria narração Bíblica no livro do Gênesis, atesta essa afirmação.[2] Assim, e não apenas por isso, acredito que Deus criou todo o planeta terra e o criou como um todo: a natureza, os oceanos, a biodiversidade etc... Porém, não podemos nos esquecer que toda a criação está sujeita as leis naturais de sua própria existência, nas quais nós seres humanos podemos interferir. Portanto, é justo que atribuamos a Deus a responsabilidade das tragédias naturais, visto que Ele é o Criador? Na minha simples reflexão, penso que não seja racional nem correto. Explico-me brevemente: Como os noticiários bem esclareceram, o terremoto é de ordem natural do planeta e, o tsunami ocorreu por conseqüência da magnitude do terremoto; além disso, e não atribuindo aos lamentáveis fatos ocorridos, podemos constatar que o mundo está sendo contaminado, desde os oceanos, com lixo radioativo, dentre outros lixos, até as regiões superiores do planeta, com cerca de 45 mil toneladas de dejetos espaciais orbitando sobre a terra, sem deixar de mencionar a destruição da camada do ozônio protetor. A vida natural está sendo dizimada! E nós homo sapiens, com ela. Responsável? Todos! Sendo assim, eu não poderia jamais responsabilizar o Deus Criador, pois, Ele não tem qualquer vontade de castigo, punição e morte para sua criação. Estes aspectos, que a Deus atribuímos, assemelham-se muito mais as nossas características humanas!
Certamente, ainda podemos pensar que Deus, mesmo não sendo o responsável, ainda permite que o mal aconteça. Diante disso, lembro-me das muitas horas de debates nas aulas de filosofia, em que discutimos sobre o dualismo entre o bem e o mal. Suponhamos um hipotético e um filosófico Deus que ficaria num incômodo silêncio diante do que aconteceu. Nós nos perguntaríamos: “porque Deus fica calado diante de tudo isso? Olhando sobre este aspecto, descubro uma ambigüidade exprimindo a questão que poderia ser colocada assim: se Deus é Deus, porque existe o mal? A ambigüidade desse deus dos filósofos se arrasta desde toda filosofia antiga, passando por santo Agostinho até os dias atuais: “O mal, é a ausência do bem.”[3] “O mal como fruto do livre arbítrio.”[4] “A existência do mal é a prova de que Deus não existe.”[5] São explicações filosóficas razoáveis mas não resolve o problema da aporia[6] existente. Todavia, penso que a filosofia tem sua própria área teórica de reflexão, mas, no que tange meu humilde ponto de vista, ela nunca dará uma resposta suficientemente convencível sobre a existência de Deus. Pois, se diante da realidade dos fatos naturais, procuramos um “Deus culpado”, estamos muito aquém de dizer algo que faça sentido.
Tenhamos, então, por princípio algo simples, comum e aceitável em nosso momento atual: “não há liberdade sem responsabilidade.” Então, quando penso na existência do mal e ele implica na relação homem e natureza, é possível que Deus permita que o mal aconteça, isto, por conseqüência, daquilo que Ele já nos permitiu por primeiro na história da criação: o livre arbítrio.
Concluindo nossa reflexão, acredito que no silêncio de Deus na cruz de Jesus Cristo, é que Deus falou mais alto. De maneira que, me referindo à situação das catástrofes naturais, é o silêncio de Deus, presente nos milhares de seres humanos que sofreram e sofrem as conseqüências de dor, perdas e mortes, que ecoa o grito de Deus até agora, clamando pela compaixão humana. Espero que possamos ouvir o silêncio de Deus, e nos sintamos co-responsáveis pela relação entre o homem e a natureza, para que, assim, se estabeleça uma nova perspectiva de uma vivência num mundo melhor a ser conquistado.
[1][1] Joildo Cândido da Silva, é seminarista da Arquidiocese de Uberaba MG, e estudante do curso de Filosofia da Faculdade Católica de Uberlândia MG.
[2] “No princípio Deus criou o céu e a terra...” Cf. Bíblia Sagrada, Livro do Gênesis, 1, 1... Paulus 2002, SP
[3] MORESCHINI, Claudio.História da Filosofia Patrística. Tradução de Orlando Soares Moreira.SP: Loyola, 2008.
[4] Em A Cidade de Deus Agostinho pergunta: “Peccatum, unde uenis?” (“Pecado, de onde vens?” – Mal, liberdade e futuro no De Civitate Dei, de Agostinho).
[5] FAURE, Sebastião. Provas da inexistência de Deus. Editora Germinal, RJ. 1959.
[6] Aporia: Impasse do pensamento. Reconhecimento por parte de todos os interlocutores da impossibilidade da conclusão de um debate. Dicionário de Filosofia.