Joildo Cândido da Silva[1]
Freqüentemente, diante das Igrejas, passam pessoas que habitualmente fazem o sinal da cruz. Às vezes, alguns rostos cansados e abatidos da labuta diária demonstram muita dignidade, respeito e amor, ao Deus que acreditam ali morar. De fato, as Igrejas são consideradas lugares sagrados, intituladas “casa de Deus”. Erramos quando, dizemos que esse fato é simplesmente cultural e, para alguns, característica de personalidades interioranas de homens e mulheres que desenvolveram devoções populares e práticas religiosas. Independentemente, da nossa maneira de ser, de viver e crer, penso que a “casa de Deus”, é um lugar de acolhida, reúne pessoas que almejam a felicidade, sonham com a justiça e buscam experenciar uma vida fraterna. Acontece que na vida, nem sempre encontramos Deus nas Igrejas. Existem realidades incoerentes que contradizem nossa capacidade de sermos solidários, autoritarismos imperialistas, neo-liberalismos que relativizam valores morais e desenvolvem um egoísmo indiscriminadamente... Reconhecemos, sem dúvida, as conseqüências e profundidades desses fatos. Assim, alguns já não se sentem estimulados, não há motivação, sentem-se desesperançados, o distanciamento, a descrença são conseqüências absolutamente certas. Diante disso, observo penalizado o sofrimento e o esforço daqueles que ainda crêem na existência desse Deus que habita as Igrejas. Parece-me uma complexidade de expressões factuais positivas e negativas relacionadas à existência de Deus.
Quando criança no interior do nordeste, ouvia nas madrugadas o despertar para as caminhadas penitencias animadas, ao som de uma velha canção do padre Zezinho SJ, “Estou pensando em Deus, estou pensando no amor...” Assim, atrevo-me a escrever essa pequena reflexão, pensando na crença e na existência de Deus. Não é meu propósito pensar em Deus como um erudito ou um intelectualista. Para isso, encontramos respeitados livros como: “Existe Deus?”, onde o autor, Hans Kung, elenca aspectos significativos e históricos sobre Deus. Não, almejo apenas propor um pensamento sobre o Deus do dia-a-dia, que apresenta-se na simplicidade da própria vida.
Há algum tempo, uma reportagem publicada no Jornal, Folha de São Paulo, chamou minha atenção. O titulo da matéria: “Deus é desnecessário para explicar a criação, diz Hawking.” Certamente, a teoria do físico Britânico é admirável e fundamenta-se em aspectos fascinantes, que as ciências empíricas, especificamente a física moderna, apresentam para explicar a origem do universo. Por outro lado, não consegui enxergar um ateísmo que justificasse o espanto causador de tantas discussões.Talvez, por ter gravado na minha memória de criança interiorana, aspectos de fé num Deus, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, tenha compreendido, apenas, com a leitura da reportagem, acima mencionada, que em momento algum, o respeitado físico, tenha negado a existência de Deus, porém, ele questiona a sua iniciativa na obra da criação: “O Big Bang não teria uma causa, seria uma geração espontânea e não seria necessário invocar Deus pra acender o pavio e por o universo em movimento.”[2] Assim, podemos valer-nos da unívoca filosofia aristotélica e tomista : “Nenhum ser pode agir antes de existir[3]”, ou ainda, mencionar Agostinho: “Nada há no homem e no mundo superior a mente, mas, a mente intui verdades imutáveis e absolutas, que são superiores a ela, portanto, existe a verdade imutável, absoluta e transcendente que é Deus.”[4] Diante disso, é válido salientar que até os primeiros filósofos gregos, buscavam um princípio (arché) físico para explicar o cosmo. Entretanto, como mencionamos, anteriormente, não aprofundaremos nossa reflexão em questões filosóficas e metafísicas. Isto ficará para outra ocasião.
E, por conseguinte, eu continuo pensando em Deus. Ora, como não pensar em Deus, se os noticiários anunciam com freqüência guerras em nome de um deus? Como não pensar se vivemos numa sociedade que estabelece para si o dinheiro como o bem supremo (deus)? Como não pensar se vemos constantemente profissionais do legislativo, executivo, judiciário discutirem leis que possam decidir se algumas vidas humanas têm o direito de nascer ou não?... Impossível deixar de pensar em Deus, quando as próprias religiões se dividem e travam, entre si, batalhas de verdades doutrinais e fundamentalistas.
Também sou incapaz de acreditar no deus que muitos anunciam e, defendem em suas doutrinas um imediatismo quase divinizado que se expande e explora a boa vontade e a fé do povo, com um “pseudo-evangelho” que visa, unicamente, o lucro e o crescimento da sua igreja particular. Não há como não pensar em Deus, quando as instituições educacionais de fundações religiosas dedicam-se apenas, a educação de alunos provenientes das famílias de classe média e rejeitam os pobres por não terem condições financeiras para pagar seus estudos.
Para ser sincero, assim, também penso que seria um ateu!
Sem duvida, eu seria um agnóstico ou um ateu convicto, se tivesse que professar minha fé, num deus que é só uma idéia de minha mente. Confessaria, do mesmo modo, meu ateísmo, se tivesse que pensar num deus autoritário, coronelista, egoísta, opressor que deseja tornar as pessoas submissas aos seus próprios interesses. Confesso ainda meu ateísmo, quando ando pelas ruas a pés, e quase sou atropelado. Ou ainda quando ando de carro, e vejo a incoerência dos que pregam em seus veículos, em suas casas, comércios, out dors: “Jesus é o senhor”... “A serviço do rei Jesus”... “Só Deus Salva”... “Deus é fiel!”... Assim, compreendo que essa ostentação não corresponde a minha fé. Por isso, prefiro continuar ser aquela criança interiorana que cresceu e soube adaptar-se ao momento presente, mas não rejeitou sua fé no Deus que mora nas Igrejas e que não faz acepção de pessoas. Certamente continuarei pensando em Deus, cada dia de minha vida, descobrindo e encontrando-o na simplicidade da vida de tanta gente que simbolicamente, com o sinal da cruz, torna recíproco seu amor e respeito a esse Deus.
[1] Joildo Cândido da Silva, é Seminarista da Arquidiocese de Uberaba-MG, e aluno do curso de Filosofia da Faculdade Católica de Uberlândia-MG.
[2] Folha de São Paulo, 02 de setembro de 2010.
[3] AQUINO, Tomas. O Ente e a Essência, Carlos Artur do Nascimento (trad.), Petrópolis: vozes, 1995.
[4] Santo Agustinho, in Os pensadores, vol. VI, abril, SP. 1973
